A dona de casa digital: feminismo, trabalho e mídia digital

Características

título original: The digital housewife: feminism, labour & digital media

tradução: Humberto do Amaral

projeto gráfico: Isabela Sanches

brochura 14 x 20 x 2 cm, 240 páginas

peso: 270 gramas

ISBN:

Edição: 1a edição (dez/2020)

 

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Para a feminista e teórica de mídia Kylie Jarrett, existe uma contradição na mídia digital. Usamos plataformas comerciais como Facebook ou Twitter para expressar nossa identidade e afetos, construir comunidades e para nos engajarmos politicamente. Os sites de mídia social estão cada vez mais implicados em nossa identidade e relacionamentos.

Ao mesmo tempo, alimentamos gratuitamente o conteúdo desses sites com atualizações de status, tweets, vídeos, fotos, opiniões e ajuda. Em nossas interações online, também geramos um suprimento quase infinito de dados do usuário que podem ser extraídos, reaproveitados e vendidos aos anunciantes. No campo da pesquisa em mídia digital, essas práticas têm sido vistas cada vez mais como mão de obra, trabalho que realizamos gratuitamente e que beneficia as empresas de mídia e seus anunciantes. Adolescentes e crianças também são bem-vindos.

Como usuários da web comercial, estamos social e criativamente engajados na produção de vários tipos de sociabilidade significativa, mas também somos considerados trabalhadores explorados pelas empresas das plataformas de comunicação. Como podemos reconciliar essas contradições e compreender o significado econômico e social da mídia digital?

O termo dona de casa digital é provocador, diz Jarrett. Mas, ao mesmo tempo, ele remete a uma história que se tornou bem conhecida com o livro Calibã e a Bruxa de Silvia Federici: desde as origens do capitalismo, da "assim chamada acumulação primitiva", o trabalho feminino, doméstico, afetivo e biológico da mulher é capturado gratuitamente pelo capital.

Como se dá essa captura dentro do próprio lar e no âmbito da família? Segundo as duas pensadoras feministas, o salário era considerado como o ganho necessário para o trabalhador manter a si e à sua família, ou seja, reproduzir sua condição social, gerar com sua esposa filhos que serão novos trabalhadores. Mas essa equação ignorava o trabalho feminino realizado em casa, longe das fábricas e oficinas. Afinal, o que é o trabalho doméstico, afetivo e biológico, do ponto de vista da economia política, senão a reprodução da força de trabalho?

Hoje, quando homens e mulheres vendem seu trabalho como mercadoria no mercado de trabalho, a situação se repete. Talvez agora o pacote de trabalho doméstico seja mais bem dividido entre parceiros, mas a lógica permanece a mesma: é trabalho realizado para reproduzir a força de trabalho, mas que não é remunerado. Kylie Jarrett prolonga esse raciocínio para o trabalho digital que realizamos gratuitamente nas mídias sociais. É claro, esse trabalho é realizado por todas e todos, daí o termo dona de casa ser provocador: todos somos bons para o trabalho digital grátis.

Kylie Jarrett é professora de Estudos de Mídia da universidade Maynooth na Irlanda. Com Ken Hillis e Michael Petit, é autora de Google and the Culture of Search e pesquisou uma série de outras plataformas comerciais da web, como eBay, YouTube e Facebook.